Se você já sentiu um frio na espinha ao pensar em “fechar as contas” do terreiro no final do mês, respire fundo. Você não está sozinho. Muito pelo contrário. A gestão financeira é, talvez, um dos maiores e mais silenciosos desafios enfrentados por dirigentes de terreiros em todo o Brasil.
De fato, é um tema que mistura o sagrado com o material, a fé com o boleto, e que muitas vezes se torna um tabu. Falamos abertamente sobre caridade, sobre axé, sobre a beleza da nossa fé, mas raramente falamos sobre o dinheiro que paga o aluguel, a água, a luz e as velas que tornam tudo isso possível.
Então, por que isso acontece?
A verdade é que essa dificuldade não é um sinal de má gestão ou falta de fé. Pelo contrário, é um problema estrutural. Por exemplo, uma pesquisa da Phomenta, reportada por diversos veículos, apontou que 86% das Organizações da Sociedade Civil (OSCs) veem a falta de recursos financeiros como seu maior obstáculo. Consequentemente, isso mostra que a sua dor é real, compartilhada e merece ser discutida abertamente.businessmoment.com.br/
Vamos mergulhar nos 5 maiores desafios que transformam a gestão financeira em um verdadeiro teste de fé.

1. A Centralização no Dirigente (O “Eu-preendedor” do Axé)
Na grande maioria dos terreiros, o pai ou a mãe de santo não é apenas o líder espiritual. Ele é também o administrador, o comprador, o gestor de pessoas e, claro, o financeiro. Essa centralização é natural, mas perigosa.
Além disso, segundo a Agência Brasil, reportando sobre dados do Sebrae, a menor taxa de sobrevivência de pequenos negócios está diretamente relacionada à falta de capacidade de gestão. Muitos gestores aprendem “na raça”, por necessidade. Soa familiar? Como resultado, essa sobrecarga não só aumenta o risco de erros, como também gera um enorme esgotamento, tirando o tempo e a energia que deveriam estar dedicados ao sagrado. ebc.com.br
2. A Falta de Ferramentas Adequadas
Cadernos, anotações em folhas soltas, grupos de WhatsApp… Uma pesquisa do Sebrae de 2020 apontou que 43% das pequenas empresas ainda usam métodos tradicionais, como cadernos, para sua gestão financeira. Emborra, essas ferramentas quebram um galho, mas não foram feitas para isso. Isto é, elas se perdem, não geram relatórios e tornam impossível ter uma visão real da saúde financeira do terreiro. É como tentar construir uma casa usando apenas um martelo. terra.com.br
3. O Medo de “Cobrar” e a Visão Limitada da Contribuição
Sem dúvida, este é o ponto mais sensível. Como falar em “mensalidade” em um espaço sagrado sem parecer que estamos “cobrando pelo axé”? Esse receio leva a dois problemas graves: primeiramente, misturar as contas pessoais com as do terreiro e, em segundolugar, limitar a ideia de “contribuição” apenas ao dinheiro.
No entanto, a contribuição para a manutenção do axé pode e deve ir além do financeiro. Um médium ou consulente que, momentaneamente, não pode contribuir com a mensalidade, pode ter o talento e a vontade de contribuir com um serviço essencial. Por exemplo, uma pintura, um reparo elétrico, a organização de um evento, a gestão das redes sociais… Em outras palavras, essas são contribuições valiosíssimas!
A chave é tratar essa troca de forma organizada, como se o serviço fosse contratado: levantar a necessidade, definir a prioridade e, se possível, até fazer orçamentos para entender o valor daquela contribuição. Dessa forma, isso não apenas reduz custos, mas, acima de tudo, dá a todos a possibilidade de pertencimento e de serem parte ativa da sustentabilidade do terreiro, independentemente de sua condição financeira momentânea.
4. A Ausência de Planejamento e o Sonho Distante do “Fundo de Reserva”
Seu terreiro precisa de uma reforma? Gostaria de fazer uma festa de Ibeji mais farta no próximo ano? E mais importante: e se um cano estourar? E se a geladeira da cantina queimar?
A gestão financeira não é apenas sobre pagar as contas do presente. É principalmente, sobre garantir a sustentabilidade e a segurança do terreiro no futuro. Isso significa criar um orçamento, definir metas, e fundamentalmente, construir um fundo de reserva. Ou seja, um pequeno valor guardado todo mês que serve como um “seguro” para emergências, garantindo que um imprevisto não vire uma crise e ameace a continuidade dos trabalhos.
5. A Falta de Transparência (e o Medo de Prestar Contas)
Muitos dirigentes evitam prestar contas por medo de serem mal interpretados ou por acharem que “não devem satisfação”. Porém, especialistas em gestão do terceiro setor são unânimes em afirmar que a transparência é a maior ferramenta para gerar confiança e sustentabilidade. ufrgs.br
Afinal, quando os médiuns e a assistência entendem para onde cada real (ou cada hora de serviço) contribuído está indo, eles se sentem parte da construção. A contribuição deixa de ser uma “obrigação” e se torna um ato de pertencimento e fortalecimento daquela comunidade.
Conclusão
Um Desafio Adicional: A Invisibilidade nos Dados
Ao longo deste artigo, você deve ter notado que usamos dados de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e de micro e pequenas empresas para ilustrar os desafios da gestão. Então, por que fizemos isso? A resposta revela um problema ainda mais profundo: a quase total ausência de estudos e dados específicos sobre a gestão de terreiros de religiões de matriz africana e indígena.
INfelizmente, essa invisibilidade estatística é um reflexo do racismo estrutural e religioso que historicamente marginaliza nossas comunidades. Enquanto existem inúmeras pesquisas sobre a gestão de empresas e ONGs, os desafios financeiros específicos de um Ilê, uma Tenda ou um Barracão permanecem nas sombras, restritos às conversas informais entre irmãos de fé.
Usamos os dados de OSCs e pequenas empresas porque eles são o espelho mais próximo da nossa realidade administrativa. Afinal, gestão é gestão em qualquer lugar. Os princípios de planejamento, controle, organização e transparência são universais e se aplicam tanto a uma startup de tecnologia quanto à casa do seu Orixá. A boa gestão financeira não diminui o sagrado; pelo contrário, ela o protege, garantindo que o axé tenha um alicerce material forte para prosperar.
Reconhecer essa lacuna de dados não é um ponto final, mas um chamado à ação.
Um Novo Começo para a Gestão do seu Axé
Reconhecer esses desafios é o primeiro e mais importante passo. Entender que você não está sozinho nessa jornada tira um peso das costas e nos permite buscar soluções juntos.
Quer continuar essa conversa e trocar experiências com outros gestores de terreiro? Entre no nosso grupo de WhatsApp! É um espaço seguro para tirar dúvidas e aprender em comunidade. https://chat.whatsapp.com/IntptFvqEATHfb8P7Bx9Al
Nos próximos conteúdos desta série, vamos deixar o diagnóstico de lado e partir para a ação.
Fique de olho no nosso próximo episódio, onde vamos te ensinar a criar sua primeira planilha de controle financeiro do zero!
