Para muitos que cruzam nossas portas, não somos apenas uma opção; somos o último recurso. Essa consciência sobre a gestão de terreiros deve nortear cada palavra e gesto, transformando nossos espaços em verdadeiros portos seguros. Recentemente, uma notícia sobre a perda de um jovem para o suicídio trouxe uma reflexão urgente: qual é o nosso papel ativo na preservação da vida e no cuidado com a saúde mental da nossa comunidade?

Este artigo não nasce da teoria, mas da dor e da necessidade de transformar a impotência em ação. A seguir, vamos explorar como uma gestão de terreiros focada no ser humano é fundamental para o bem-estar de médiuns e consulentes.
O Terreiro como Rede de Apoio: Mais que Ritual, um Ecossistema de Cuidado
É fácil se perder na rotina de rituais e obrigações. No entanto, uma gestão de terreiros eficaz transcende o calendário. Ela se concentra em zelar por vidas. Como sabiamente compartilhou uma líder religiosa, a vigilância precisa ser constante, “treinando os outros médiuns a ficarem de olho nos irmãos”.
Isso significa criar uma rede de observadores, onde a responsabilidade pelo bem-estar é compartilhada. Uma mudança brusca de comportamento, um isolamento repentino ou até mesmo uma melhora súbita após uma fase de tristeza são sinais que não podem ser ignorados.
Mas como criar essa cultura de cuidado mútuo?
A resposta está em descentralizar a observação e centralizar a confiança na liderança, criando canais seguros para que um membro possa dizer: “Mãe/Pai, fulano está estranho, dá uma olhada”.
Quebrando Tabus: Saúde Mental não é “Falta de Fé”
Um dos maiores perigos dentro de qualquer comunidade de fé é a negligência disfarçada de conselho espiritual. Frases como “trabalha que passa” ou “é mi-mi-mi”, como bem pontuou uma dirigente, são perigosas e podem custar vidas.
A saúde mental e a espiritualidade não são inimigas; são complementares. O papel da liderança não é substituir o psicólogo, mas sim ser a ponte até ele. No entanto, como destacou outro líder, essa ponte não pode ser uma simples terceirização. Encaminhar para um profissional sem oferecer o amparo espiritual da casa – um banho, uma conversa, um passe – é deixar o filho desamparado. O ideal é a integração: o terreiro oferece a base de sustentação espiritual enquanto a pessoa cuida da mente com um profissional.
O Acolhimento da Identidade: Uma Via de Mão Dupla
Em nossa jornada, um ponto crucial é o acolhimento da identidade espiritual de cada um. Para uma pessoa com mediunidade aflorada, crescer em um ambiente que reprime essa característica pode gerar um conflito interno devastador. O terreiro surge, então, como um lugar de validação, um porto seguro que diz: “O que você sente é real e aqui você pode aprender a lidar com isso”.
Contudo, essa postura precisa ser, necessariamente, uma via de mão dupla. O mesmo respeito que pedimos para quem busca o terreiro, devemos oferecer a quem, nascido em nossa fé, encontra seu caminho em outra jornada. Se um filho de santo encontra sua paz no cristianismo, no budismo ou em qualquer outro caminho, nossa responsabilidade como família de santo é abençoar sua jornada. O acolhimento só é genuíno quando respeita a liberdade.
Da Reflexão à Ação: Guia Prático para uma Gestão de Terreiros que Acolhe
Transformar a intenção em prática é o grande desafio. Com base na sabedoria coletiva de diversos líderes, compilamos um guia de ações práticas:
- Crie uma Rede de Observadores: Incentive os membros a cuidarem uns dos outros e a reportarem discretamente à liderança qualquer sinal de alerta.
- Promova o Desenvolvimento Pessoal: Institua estudos e doutrinas focados em maturidade emocional, não apenas em desenvolvimento mediúnico.
- Construa Pontes, Não Muros: Mapeie os CAPS e psicólogos com atendimento social na sua região. Tenha essa lista visível e acessível para todos, inclusive para a assistência.
- Convide Especialistas: Realize palestras e rodas de conversa com profissionais da saúde mental. Isso normaliza o tema e educa a comunidade.
- Divulgue Ajuda Imediata: O número do CVV (188) deve ser uma informação visível e constantemente lembrada no terreiro. É um recurso gratuito, anônimo e disponível 24h.
Em suma, a gestão de terreiros no século XXI exige uma visão 360º do ser humano. Cuidar do sagrado é, inseparavelmente, cuidar das vidas que o sagrado nos confia.
Conclusão
Este artigo começou com uma mensagem no meu celular e um nó na garganta. A notícia do suicídio de um jovem, tão próxima da minha realidade familiar, trouxe um conflito devastador. De um lado, a dor da perda. Do outro, uma pontada de culpa. Eu, que me proponho a discutir a gestão de terreiros, estava planejando escrever sobre saúde mental, mas ainda não tinha dado a devida atenção ao tema. A vida, de forma trágica, me mostrou que a urgência era maior do que eu imaginava.
Aquele sentimento de impotência inicial, a sensação de estar atrasado, deu lugar a uma necessidade de agir. As conversas que se seguiram, com líderes e amigos de fé, mostraram que eu não estava sozinho nessa inquietação. A sabedoria compartilhada por cada um – a vigilância ativa da Mãe Ale, o foco em desenvolvimento do Pai Luis, o chamado à união do Pai Diangelis – transformou minha dor individual em uma construção coletiva.
Percebi que a verdadeira gestão de terreiros começa exatamente aqui: na nossa capacidade de transformar a dor em acolhimento, a impotência em ação e a reflexão em prática. Não podemos esperar a próxima notícia triste. O cuidado precisa começar agora, dentro de nós e dentro de nossas casas de axé.
Que este texto, nascido de um momento de luto e conflito, sirva como um lembrete permanente para mim e para todos nós: a gestão mais sagrada que existe é a gestão da vida. E ela exige nossa atenção, nossa coragem e nosso amor, todos os dias.
